6.8.16

RØCIPES

RISOTTO
GAMBAS
COCO
LIMA



Foi tudo comprado no LIDL, o melhor dos supermercados que vende organismos geneticamente modificados, ou seja, o melhor dos supermercados que vende Comida™. Acho que dá para ver pela figura acima que os produtos eram todos de excelente qualidade! Dá, não dá? Daria ainda mais se a máquina fotográfica tivesse um iOS superior a 7.1.2, mas isso agora não interessa nada...

É importante ter dois tipos de gambas (inteiras, com casca, grandes e gordas, vendem-se congeladas a peso) e miolo de gamba (embalado e congelado, mais baratucho, para isto não vos custar os olhos da cara e do cu). Um bom arbóreo de origem italiana de Itália (há muita merda de origem italiana de Porto de Mós à venda nos supermercados). Leite de coco que seja mesmo leite de coco, ou seja, cremoso e denso. Limas, muitas limas, praí umas 20 limas, bem verdes e rijas, e guardadas algumas horas no frigorífico. Manteiga, inteira, sem sal. Vou repetir, porque há quem confunda estas palavras todas e traz para casa coisas que se chamam "margarina, vegetal, light, bio"... Ou seja: manteiga, inteira, sem sal. OK? Chalotas (podem ser cebolas, mas chalotas é melhor), um talo de aipo com rama, 1 dente de alho com casca, azeite do bom, sal, pimenta, água. E, claro, parmesão. Do inteiro, do por ralar, do bom. São os básicos. Os pinhões comprei porque estavam baratíssimos (embalados num saquinho com umas 50 gramas). O cebolinho é essencial para este prato — o LIDL tem quase sempre em vaso; é mais caro, mas pode voltar a crescer se tiverem muita sorte e algum jeito para a poda. Ah! E um vinho branco, do mau, do carrascão, do de pacote.

Em casa. Pico chalotas e aipo e refogo suavemente em partes iguais de manteiga e azeite. Junto tantas mãos de arbóreo quantas pessoas há para jantar. Envolvo o arroz no refogado e espero que comece a crepitar levemente. Quando estiver translúcido, deito o copo de vinho branco e mexo sem parar, até evaporar todo o líquido e o arbóreo começar a largar gosma. É aqui que posso parar a cozedura do arroz, tapando a panela e reservando. Em mais altura nenhuma poderei voltar a parar.

Descongelo todas as gambas e tempero-as com sal e pimenta preta. Dou um murro no dente de alho e deixo-o fritar um pouco em azeite. Adiciono primeiro as gambas inteiras, com casca, e alouro dos dois lados. Acrescento depois o miolo de gamba, que salteio, fazendo acrobacias com a frigideira. Dois minutos em lume forte serão suficientes. Quando o fundo da frigideira começar a acumular aquele delicioso "lixo" do mar, espremer 3 ou 4 limas para cima, para refrescar as gambas e soltar os resíduos. Dar mais 30 segundos e desligar. Retirar imediatamente as gambas e reservar, tapadas. Tirar a casca às gambas inteiras e devolver as cascas à frigideira (reservar uma gamba inteira por pessoa para o empratamento, sem descascar). Acrescentar um pouco de azeite à frigideira e continuar a fritar as cascas, pressionando as cabeças para largar os sucos. Atirar com esta mistela gore para dentro de uma panela funda e acrescentar água quente, deixando ferver bem. Retificar o sal. Acrescentar uma rama de aipo, para harmonizar o sabor. Quando a água estiver turva, alaranjada e a cheirar a praia badalhoca, coar para outro recipiente e colocar em fogo quase imperceptível de brando, só para manter o caldo quente. Acrescentar sal, se necessário.

Voltar ao arroz. Acrescentar duas generosas conchas de caldo e re-iniciar a cozedura. Deixar absorver e colocar outra concha de caldo. Mexer, absorver. E assim sucessivamente. Nunca parar de mexer, para libertar a goma do arroz. Quando já só faltarem duas conchas de caldo, colocar o leite de coco e envolver. Nesta altura, o bago do arroz já deverá estar no ponto certo, por isso convém reduzir o fogo, para não re-cozer. Ralar cerca de 50 gramas de parmesão lá para dentro. Envolver. Gambas, picadas grosseiramente, lá para dentro. Últimas duas conchas de caldo a seguir. Dar uma envolvidela com a colher de pau e desligar automaticamente o fogo, tapando a panela, deixando o risotto descansar durante 5 a 7 minutos.

Abrir a panela, dar uma cheirada só naquela de confirmar que existe pornografia gastronómica, e espremer umas 3 limas lá para dentro. Mexer delicadamente o risotto e começar logo a servir. Toppings: pinhões previamente e ligeiramente tostados, gamba inteira e disposta de forma sexy, cebolinho picado em chuva e sem medo, quarto de lima para os palatos mais selvagens. Finalizar com raspa de lima e de parmesão.

© Chef Rø, 2016

22.7.16

A DIETA DA COMIDA™


PARTE II:
SOBRE-A-MESA



Enquanto as pessoas comiam e falavam sobre o que comiam (e, concomitantemente, sobre o facto de estarem a comer), o reflexo dessa ruminância tautológica era projetado em espelho, paralelo aos olhos, perpendicular à fome, de frente para a comida e de costas para os comensais, uma diagonal à cidade de Lisboa. Dramaturgia caleidoscópica:


AVANT-PROP'S
O cosplay, ouコスプレ (Japonês: kosupure), é a “palavra-valise” que aglutina costume com play (ou com roleplay), e refere-se a uma atividade lúdica praticada por seres humanos que gostam de fazer de conta que são personagens (quase sempre fictícias). Essas personagens podem vir dos universos anime e manga, mas também dos videojogos, do cinema, da música, da banda desenhada, do teatro de época (ou da época), ou até da gastronomia — movimento recente que dá pelo nome de Cozeplay™. Mas ao contrário do que se lê nos artigos Wikipedia, o objetivo do jogo não é interpretar/representar da melhor maneira possível os “bonecos” que se escolhem; o objetivo é dar forma (sem conteúdo) a essa ideia genérica e trans-epocal a que damos o nome de “festa temática” (conceito operativo que está na base de toda a produção cultural/artística desde que o homem é Homem até à atual idade). Ou seja, todas as performances são “festas temáticas”, presas a um dress code que se aceita cumprir: do cocktail de honra ao aplauso final, do ensaio de leitura à leitura da crítica no jornal. Este jantar propõe-se a re-instaurar um outro Parque, onde cozeplayers™ escolhidos a dedo se juntam em torno de uma refeição paleolítica, investem num retorno do Homem ao homem, e participam da festa temática primordial, aquela cujo tema é: Festa Temática.

WATER DISNEY
Este jantar é um retro-playground desenhado por Chef Rø & Nuno Carrusca, dois dos mais obscuros water-designers do universo an-artístico, e abre (com)portas no dia 1 de Julho de 2016 para receber a primeira amostra de 80 exemplares da Raça Humana que será submetida ao placebo culinário PISS’TORY REPEATING™. Para a destruição dialéctica das bipolaridades históricas, e para a instauração de uma nova ordem ética, estética, política, sociológica e filosófica global. O placebo erradica a ética do gosto, a ambiguidade, a narrativa (des)instituída, a criatividade, a originalidade, a ironia, todos os coming backs e respectivos novos pretos, a gaseificação da arte, a solidificação industrial da mesma, o conceito genérico (logo, comercial) de "performatividade", a hipsterização das práticas artísticas (ou seja, a redução da arte, e do resto, à disciplina do Design), a responsabilização do espectador, o sistema de "castas", a relação do eu com o outro, a confusão secular entre Arte e Desporto (também conhecida por "medalhização" mediática do art-leta), a arte que se parece com arte e a que se parece com coisas que não são arte e, de um modo geral, todas as práticas para-artísticas (da recepção à crítica, da produção à promoção) que se inscrevem em regimes de primeira ou de segunda via, ou seja, bipolares. Por outras palavras, o placebo erradica o Século XX, e todos os séculos para trás, e todos os séculos para a frente. Também erradica o Presente. O que significa que este jantar é quanticamente a-temporal, a-espacial, a-histórico e a-moral. Ou seja, é a-estético, porque est(ético): o copo (d’água) não está nem meio cheio nem meio vazio — é só um copo.

DIETA TROGLODITA
CALIBANISMO™ — Vem de Caliban (vide “A Tempestade”, de William Shakespeare) e significa qualquer coisa como “comer a carne sem lhe ver o sangue”. Ou então: “Autofagia, isso até eu fazia!”. Nesta feira popular neo-darwinista, a carne é servida crua, não sem antes ser aspergida com intensificadores antibióticos de sentido, para depois ser cortada em blocos ergonómicos geometricamente iguais: serve todos os palatos retro-futuristas e segue todas os hipsterismos gastronómicos: paleolíticos crudívoros, veganos microbióticos, tofu-lovers suburbanos e outros sucedâneos alimentares cultivados nessa gigantesca quinta biológica que é a World Wide Web. Tal como a Arte, também a Gastronomia se transformou em Design. E bate com o pé direito no chão, marchando assim: “Demagogia, silêncio calma, feitiçaria...”. Existe um missing-link do tamanho de um abîme que separa a Arte da Decoração de Interiores. Venha descobri-lo, comendo.

MYOPIA IS THE NEW UTOPIA
GASTRONOMIA MÍOPE™ — Tudo o que parece, não é. Neste hospital temático, redime-se o pecado da auto-ilusão. Uma só refeição é suficiente para deslocar a retina 3D do paciente, substituindo-a por uma visão multidimensional. Terminado o período de ovulação quanticamente assistida, o paciente deixará de sentir que está dentro, para passar a sentir que está (de) fora. Que é transparente. Que observa os dois lados, o meio e o conjunto. Contra-indicações: espécimes humanos com elevado grau de deficiência binocular e/ou que apresentam comportamentos maníaco-depressivos quando expostos à crise da originalidade.

100% PARRA, 0% UVA
READYMADE FOOD™ — A preguiça é o novo avant-garde. Ou o síndrome de Bartleby aplicado à Arte, elevando-a à categoria de Gastronomia. O contrário já foi feito.

TROMPE D'OIL
AZEITEGEIST™ | Faking it ‘til becoming it! — Na dancefloor do Pólo das Gaivotas distribuir-se-ão drogas psicotrópicas totalmente gratuitas a todos os comensais que acreditam ser possível cozinhar com o coração, que fumam pensativos cigarros, que fingem as dores que deveras sentem, que passaram férias em Benidorm em 1994, que sonham emigrar para o continente asiático, que citam Paulo Coelho no Facebook, ou que subscrevem a est(ética) do sótão d’avó. Menu de degustação interpassivo servido a bordo de um rav’ião Faro/Frankfurt com escala em Ibiza. Inversão dialéctica do sonho mediterrânico: vai o Azeite (Arte) em car(r)inhos de choque até à Floresta Negra (Design).

SOBRE-A-MESA
A dupla tautologia, em vídeo:

SOBRE-A-MESA™
SOBRE-A-MESA™ © A Dieta da Comida Nuno Carrusca feat. Chef Rø [Jantar Nómadas no Baldio, Julho 2016]
Posted by Chef Rø on Friday, 22 July 2016


A DIETA DA COMIDA
Num mundo onde proliferam (e imperam) categorizações alimentares cada vez mais restritivas e normativas, e sabendo que a maioria são acessórios de moda mais que posicionamentos filosóficos (ou então posicionamentos filosóficos que são acessórios de moda), interessa propor um #regresso_à_comida. Isto é, um regresso à sensualidade absoluta e à potenciação dos sentidos intrinsecamente gustativos, sem ilusões de semiótica, sem est(ética), só sensação. Este Jantar, ao afirmar-se mais pela relação que pela função, irá servir comida; é esse o seu “conceito”. Consequentemente, aos comensais é pedido que comam, apenas. Sem aditivos teóricos nem filtros do Instagram. No limite, e a falar-se sobre alguma coisa (mesmo que à boca cheia), será sempre sobre comida, ou então sobre o ato de comer. Tautologia transformada em autofagia filtrada em efemeridade... Regressar à comida implica, onto-tecnologicamente, regressar ao regime do itinerante, ao movimento recoletor, ao prazer do encontro com o exótico, à relação com o outro na partilha do sensível, ao reconhecimento da impossibilidade de cisão entre natural e artificial (é tudo natural, porque existe!), à superioridade do gosto (o sentido, não o critério!), ao desejo... Porque cada vez mais comemos aquilo que somos (e não a falácia do seu contrário), proponho então uma nova dieta — paradigma performativo e corporal — para o século XXI: comer comida e falar sobre ela.




27.6.16

A DIETA DA COMIDA™




A DIETA DA COMIDA™


Um jantar de sensibilização performativa inventado por Chef Rø em colaboração com Nuno Carrusca | Água no Bico para o evento Jantar Nómadas no Baldio, organizado pelo Seminário Nómada (estudos de performance), no Polo Cultural Gaivotas | Boavista, em Lisboa.


Tal como a Arte, também a Gastronomia se transformou em Design. Num mundo onde proliferam (e imperam) categorizações alimentares cada vez mais restritivas e normativas, e sabendo que a maioria são acessórios de moda mais que posicionamentos filosóficos (ou então posicionamentos filosóficos que são acessórios de moda), interessa propor um #regresso_à_comida. Isto é, um regresso à sensualidade absoluta e à potenciação dos sentidos intrinsecamente gustativos, sem ilusões de semiótica, sem est(ética), só sensação. Este Jantar, ao afirmar-se mais pela relação que pela função, irá servir comida; é esse o seu “conceito”. Consequentemente, aos comensais é pedido que comam, apenas. Sem aditivos teóricos nem filtros do Instagram. No limite, e a falar-se sobre alguma coisa (mesmo que à boca cheia), será sempre sobre comida, ou então sobre o ato de comer. Tautologia transformada em autofagia filtrada em efemeridade... Regressar à comida implica, onto-tecnologicamente, regressar ao regime do itinerante, ao movimento recoletor, ao prazer do encontro com o exótico, à relação com o outro na partilha do sensível, ao reconhecimento da impossibilidade de cisão entre natural e artificial (é tudo natural, porque existe!), à superioridade do gosto (o sentido, não o critério!), ao desejo... Porque cada vez mais comemos aquilo que somos (e não a falácia do seu contrário), proponho então uma nova dieta — paradigma performativo e corporal — para o século XXI: comer comida e falar sobre ela.

[Menu em breve...]

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Numa atmosfera de encontro, o jantar inclui o lançamento do Tomar Posição | O Político e o Lugar: Curso Experimental em Estudos de Performance com o baldio | estudos de performance; o início da Escola de Verão And 2016 #1: Entre modos de fazer com o And Lab; e o fecho e benefit da primeira edição do Seminário Nómada em Estudos de Performance"



PROGRAMA

- A partir das 17h — Secretaria aberta para informações sobre o Tomar Posição | O Político e o Lugar, Curso Experimental em Estudos de Performance (Baldio)

- Das 19h às 21h — Abertura da Escola de Verão AND #1, Entre-Modos de Fazer (And Lab)

- A partir das 21h — Jantar de sensibilidade performativa "Dieta da Comida", com os chefes Rø (Rogério Nuno Costa) e Nuno Carrusca; evento benefit e de fecho da primeira edição (temporada 2015/16) do Seminário Nómada Estudos da Performance (SNEP) + Apresentação/Lançamento do
Tomar Posição | O Político e o Lugar.


MAIS INFO



15.6.16

CHEF RØ DE VOLTA AO MINHO

De Amares...


Não tem denominação de origem protegida, e se calhar não precisa. É pequena, feia, difícil de descascar, acumula sujidade na casca quando cai da árvore (complicadíssima de retirar mesmo com várias lavagens), murcha muito depressa... Em suma: um filme de terror para as diretivas da UE. Em contrapartida, é muito doce (sim, mais doce que a congénere algarvia), excessivamente sumarenta (desfaz-se nos dedos ao descascar), mais-que-perfeita para se deixar transformar em doces e sobremesas e refrescos e marinadas. É uma laranja naturalmente "gourmet", como já lhe chamaram, e um dos ex-líbris, pouco divulgado, do concelho de Amares. Cresce numas laranjeiras muito feias, meio raquíticas, nos recantos mais improváveis dos quintais, e vai-se deixando cair nas bermas das estradas. Não se encontra à venda em supermercado nenhum, só nas feiras semanais de uma série de terriolas minhotas e, claro, na estrada nacional que liga Braga ao Gerês e que atravessa o concelho de Amares de uma ponta à outra. É sobretudo nas freguesias de Dornelas, Goães, Bouro Santa Marta e Bouro Santa Maria que se vêem mais senhoras sentadas à beira da estrada, a acenar com laranjas na mão aos carros que passam. Não se sabe muito bem como é que cá veio parar, por que mutação mais ou menos genética se desenvolveu, e como conseguiu sobreviver ao clima muito pouco solarento e excessivamente chuvoso das terras de entre Homem e Cávado. É também esta qualidade meio alienígena que lhe dá um encanto especial... Em Julho de 2011, acabado de regressar ao Minho, o Chef Rø juntou-se ao Pedalares, grupo de aficionados das BTT que percorre os lugares mais inauditos do concelho, desenhando rotas que ainda ninguém traçou e dando a conhecer relíquias, como por exemplo a laranja. A de Amares. Há mesmo uma rota com o seu nome. Foi essa que fizemos, filmámos e fotografámos:

video


Captação & Edição: Chef Rø [aka Rogério Nuno Costa] | Performers: João Brandão, João Silva, Carlos Silva, Moisés Veloso, José Oliveira, Filipe Moisés Vieira | Documentação: Daniel Fernandes | Agradecimentos: Pedalares, Festival Encontrarte 2011.



Bolo Cheio de Laranja de Amares

4 laranjas de Amares colhidas algures entre Maio e Agosto, durante um passeio de BTT pelos declives mais verdes do concelho | 3 ovos inteiros (grandes) | 400 gramas de açúcar amarelo | 200 ml de azeite puro virgem extra | 240 gramas de farinha com fermento + 1 colher de chá de fermento | casca de laranja de Amares desidratada no forno (q.b.) | 100 gramas de icing sugar.

Lavar muito bem as laranjas de Amares com a ajuda de uma escova, para retirar toda a sujidade da casca. Abrir 3 laranjas em 4 metades, retirar as sementes e colocar num liquidificador (casca incluída!) sem perder nenhuma gota de sumo. Juntar depois os ovos, o açúcar amarelo e o azeite, batendo tudo na velocidade máxima até se conseguir uma mistura homogénea e sem grumos. Colocar a mistura num recipiente e ir juntando a farinha e o fermento previamente peneirados, envolvendo suavemente. Picar casca de laranja de Amares desidratada (3 a 4 colheres de sopa) e incorporar na mistura. Untar uma forma de buraco com manteiga e farinha, colocar a mistura do bolo e levar ao forno a 200º durante 30 minutos, ou até o palito sair seco. Retirar o bolo do forno e deixar esfriar. Desenformar e cobrir com um glaceado feito com o sumo da quarta laranja e 100 gramas de icing sugar. Quando o glaceado secar, decorar com tiras muito finas de casca de laranja desidratada. Come-se como bem se entender, mas é perfeito com um chá gelado de limonete [aka verbena].

6.4.16

VARIAÇÕES




No Verão de 2011, no contexto do Festival Encontrarte, juntei-me a um dos projetos musicais do meu irmão (Behave!) e recriei uma das músicas mais ingenuamente belas do António Variações. Não sou cantor, tal como não sou cozinheiro, mas fiz o papel merecer-me a voz. Ingenuamente. Depois peguei nas memórias visuais todas que tinha do tempo em que não crescia, em Amares, e fiz um videoclip-memória, meio para promover a temporada Chef Rø de volta ao Minho, meio para provar a mim próprio que era capaz de cometer mais um sacrilégio artístico, mesmo que com Lisboa definitivamente atrás das costas. Uma memória-VHS arranhada pelas variações de uma "modernidade" que eu queria tanto abraçar. Assim como o António, esse entrelaçamento quântico entre o rio Cávado e os canais de Amesterdão. Vi-o atuar, em Amares, poucos meses antes do seu desaparecimento. Eu tinha 6 anos, o meu irmão tinha acabado de nascer. É mais presente na minha memória o ruído extemporâneo das pessoas, dos carros a passar na estrada nacional, do palco minúsculo, e do coreto apinhado de gente para o ver melhor, que o António ele próprio; dele guardo apenas uma imagem enevoada, longínqua, um homem pequeno, num palco pequeno, numa terra pequena. E videiras verdejantes a esconder as uvas e a fazer o resto da moldura pitoresca. Anos mais tarde, comemoravam-se os 10 anos da sua morte ao som do so-called "rock alternativo" (que terá visto nele inspiração para um disco de versões), ouvi "Olhei Pra Trás" (o original) pela primeira vez, e acreditei que a letra havia sido escrita para mim. Um daqueles delirantes clichés adolescentes, mas em post mortem, fora do tempo, sem poster colado na parede do quarto, (e eu a pôr-me a andar para Lisboa à primeira oportunidade), sem carta de recomendação, sem roupa contada, mas sobretudo sem medo nenhum, sem olhar pra trás, porque em frente não havia mais nada, não. E não havia, de facto. Só percebi isso quando regressei, em 2011. E este vídeo é, também, e por isso, uma celebração. Um aniversário de várias pessoas e de várias décadas, em modo Intercidades descarrilado:



Tentar fazer isto em casa:

Lembro-me de haver vários tipos de uvas diferentes, e de se comerem cachos inteiros daquelas mais pequenas sem necessidade de retirar os bagos aos caules, como se de flores se tratassem, lembro-me de se darem pontapés nos castanheiros para os ouriços caírem mais depressa, lembro-me da árvore que dava laranjas e limões ao mesmo tempo, lembro-me das ameixas que tinham sangue dentro, e do primeiro arbusto que deu kiwis, e lembro-me dos ovos de pato, e das saladas com cebolo (versão grosseira do cebolinho), e do vinagre de vinho tinto, e do chá de limonete fresco, e da sopa de couves e feijões feita no pote de ferro, ao lume, e lembro-me do lume, claro, e dos chocolates Milka trazidos pelos Franceses, e do cous-cous luso-franco-tunisino da tia Rucas, e das extravagâncias do Natal e da passagem d'ano regadas a champagne, ostras e bolos cheios de manteiga, e lembro-me do arroz de cabidela, e dos coelhos à caçador, e das bordalesas, e dos sarrabulhos, e do vinho que tingia, e dos morangos azedos, do arroz de grelos, e do arroz de netos, e da sopa de nabiças, e da galinha velha, e das abelhas, lembro-me dos pepinos com sal, e da cidreira, e das batatas com terra, e dos porcos, e da massa-à-lavrador, e das batatas fritas em espiral que acompanhavam a costelinha da dona Lurdes, e dos crepes só com açúcar e limão, e das laranjas que não se deixavam descascar, e das azeitonas roxas, rosas, verdes, brancas, vermelhas e pretas, e lembro-me da crista de galo cozida em vinagre, e da orelha do porco com salsa e cebola, e das omeletes de tortulhos, e das saladas de arroz de levar para a praia, e dos ovos cozidos da Páscoa que são inegavelmente diferentes dos ovos cozidos do resto do ano, e dos almoços de forno ao domingo, e dos almoços de sobras à semana, e do queijo limiano com tudo, e das sandes de picante, e das latas de goiabada, e do cheiro a café de saco, e das tangerinas amargas, e dos peixes de rio, e do arroz de tordos, e do pudim molotov, e do pão que se chama bolo, e da broa de milho, e das pataniscas de bacalhau, e do arroz a fugir do prato, e da salada de feijão moleirinho, e do leite creme que se chamava só creme, e dos bolos de romaria recheados de marmelada, e do pão torrado na brasa, e da Planta, e das Gorila, e das Pala Pala, e das malgas de cevada, e dos testos das panelas, e dos farnéis de Fátima, e dos tremoços da 'vó Ana, e das lentilhas da 'vó Linda, e da sopa de feijão verde e tomate da tia do Porto, e dos rissóis da tia Júlia, e dos bolos da madrinha, e do pão frito com ovos, e das tripas enfarinhadas, e dos farinhatos fritos em banha, e da água da fonte com limão do limoeiro, e lembro-me das coisas que não gostava e que por isso não cabem nesta lista. Lembro-me de me lembrar de Amares através deste mapa de sensações gustativas, e de ser essa, sempre, a única tangibilidade que ainda me aproxima daquele lugar. Disso e das pessoas, claro. Algumas. Voltar a Amares é — continua a ser —, voltar atrás. Celebrar os aniversários todos outra vez. Em contagem crescente. Sem futuro. Até perdermos o pé e desistirmos de o pontapear. O futuro. Porque em frente não havia mais nada, não:











Chef Rø . 2016 and beyond

26.2.16

RØCIPES


| RØSPBERRY swiss RØLL |

Não tem nada que saber. Faz-se em menos de uma hora! True shit:

Põe-se o forno a arder a 190º. Besunta-se uma base plana de ir ao forno, do tipo jelly roll pan, com margarina, depois põe-se papel vegetal por cima, depois mais margarina derretida (usar pincel) e no fim fazer um ganda dust de farinha. Vira-se a base ao contrário para deixar cair o excesso de farinha, e também para cagar a cozinha toda, e depois guarda-se. Num recipiente fundo e largo, batem-se 4 ovos inteiros e grandes com 130 gramas de açúcar ultra-refinado até a mistura ficar fluffy e esbranquiçada (usar a vara de arames e o músculo do braço). Juntar duas colheres de sopa de água (temperatura ambiente) e uma colher de chá de extracto de baunilha (há um em pó que se compra no Pingo Doce que é maravilhoso, vem dentro de umas mini-garrafinhas de plástico, e tem a dose certa de trashy, mas sem dar cabo da sobremesa...). Mexer. Peneirar 130 gramas de farinha sem fermento e envolver na mistura d'ovos lentamente, um terço de cada vez, com a ajuda de uma espátula. Não bater. Vou repetir isto porque é um dos erros mais comuns no baking caseiro: NÃO BATER a farinha, mas sim ENVOLVER. Se acham que não faz diferença nenhuma, leiam este livro e depois conversamos. Espalhar bem a mistura na base e levá-la ao forno até que comece a soltar-se nas margens, cena que demora cerca de 15 minutos. Enquanto se espera, espalha-se um retângulo de papel vegetal em cima de uma superfície seca (convém que o retângulo seja ligeiramente maior que a base de bolo que temos no forno). Polvilha-se o papel vegetal com açúcar fino, para impedir que o bolo se cole ao papel. Assim que esteja cozido, retira-se o bolo do forno, deixa-se arrefecer (não totalmente) e vira-se para cima do papel polvilhado de açúcar. Cuidadosamente, retira-se a outra camada de papel vegetal que foi ao forno, e cobre-se o bolo com uma toalha de cozinha limpa, até que arrefeça totalmente (a toalha vai impedir que o bolo seque e que se parta ao enrolar). Enquanto se espera, faz-se um doce rápido de framboesa: framboesas congeladas (ou não), açúcar a polvilhar ligeiramente e sumo de meio limão, tudo em olhómetros; deixar fervilhar em lume brando e ir mexendo suavemente; reservar no frio assim que fique espesso ou que nós fiquemos com ganas de tomar banho nele. Quando bolo e doce estiverem frios, espalha-se o segundo no primeiro, deixando meio centímetro livre nas margens. Com a linha maior do retângulo à nossa frente, vai-se enrolando o bolo para longe de nós (não tentem fazer isto ao contrário numa de rebeldia "fora da caixa"; vai dar merda...). Transferir o rolo para um prato grande. Pode-se polvilhar de açúcar refinado ou então pode-se comer logo a seguir. A primeira fatia vai sair muito feia; guardem a segunda para a foto!

;)

Chef Rø | 2016

3.1.16

RØCOCÓ CONTEMPORÂNEO™




Agradecimentos: mala voadora, Porto



Ingredientes
  • 500 gr de economicismo puro
  • 1 dl de Viagra extra virgem
  • 1 'object (petit) a'
  • 2 copos de estetização da política
  • 250 gr de aura profana do quotidiano (em pó)
  • 2 pacotes de propaganda crítica subliminar
  • 7 gr de Aufklärung da servidão voluntária
  • 6 dl de fé na Pitonisa
  • 20 gr de analfabetismo da alteridade
  • 350 gr de farinha de Arte (só da sacra e apofática)
  • 3 colheres de pluri-indisciplinar (com aroma de baunilha)
  • Mentes formatadas q.b.


Preparação
Na tigela da batedeira coloque o economicismo puro e o Viagra a temperatura ambiente. Bata até levantar em castelo e atingir o ponto Ponzi collapse. Abra o ‘object (petit) a’ e corte até extirpar o mal pela maiêutica. Noutra tigela adicione a fé na Pitonisa ao 'object (petit) a' e reserve. Numa terceira tigela, coloque a Aufklärung da servidão voluntária mais o analfabetismo da alteridade e misture até não haver sapiência que os aprisione. Nesse momento, despeje em cima da mistura, e de um só golpe, os dois copos de estetização da política. Adicione à massa resultante um pouco da farinha de Arte apofática e envolva levemente, até a massa estar pronta a tromper, ensorceler e illusioner. Cuidado para não formar grumos de mística do inefável, da analidade ou do parricídio! Quando a massa ficar homogénea, é hora de preencher as mentes formatadas. Coloque as forminhas posicionadas sobre um tabuleiro e preencha até metade com a massa. Leve ao forno pré-aquecido durante cerca de 25 minutos, mas verifique de vez em quando, pois o tempo pode depender da bricolage de conceitos e atitudes desconstrutivistas. Sirva o Røcocó™ ainda quente e polvilhado com aura profana do quotidiano e espuma de propaganda crítica subliminar.


Para mais crónicas sobre Moda, Tendências & outros Pantones™ da iArte e restantes mercadorias criativas, aderir ao seguinte grupo: OBJECTO AUSENTE.








20.12.15

RØCIPES



Em mês de festins gastronómicos intensos, com os blogs do costume a abarrotar de receitas especiais para pimp'ar o bacalhau ou o molho do peru ou a calda das rabanadas, o Chef Rø não tem rigorosamente nada para vos dizer a não ser: comam! A sério, comam muito. Até rebolar. Até não poderem mais. Até entrarem em coma gástrico. Até "lhe chegarem c'o dedo" (expressão, que adoro, da minha minhota mãe). E comam seja o que for, onde for, como for. É completamente irrelevante se vão seguir a tradição à risca ou se vão pôr ovas de esturjão em cima do bacalhau confitado em azeite de trufa. NOBODY CARES! Por isso, comam tudo a que tenham direito e não deixem que ninguém coma a vossa parte. Comam para esquecer, por exemplo. Mas não se esqueçam nunca de uma coisa importante: NÃO FAÇAM biscoitinhos temáticos como os que aparecem na figura acima... Pela vossa saúde, não façam. Mataram alguém em 2015? Não? Então não façam biscoitinhos temáticos.


Sempre vosso, Chef Røh-øh-øh!

18.11.15

RØCIPES


É o segundo post seguido que faço sobre círculos. O anterior era salgado, este é doce. Mas isso não tem importância nenhuma; o Ferran Adrià deu cabo das bipolaridades culinárias ainda antes de eu ter dado cabo das artísticas. Seguindo: acabou o reinado do triângulo! Hipster food, agora, é circular. A sério! Ou então hexagonal (mas isso deixo para outro post). A esta receita vou chamar RØDELAS DE MAÇÃ, mas a verdade é que não passam de umas básicas "tartelettes aux pommes"; só muda o nome, porque é assim que se faz hoje em dia. Por exemplo: quando for rico, vou abrir uma tarteletteria™. No Poorto, claro! Porque é assim que se faz hoje em dia: 100% parra, 0% uva. Continuando: cortam-se círculos de massa folhada como na receita anterior, picam-se com um garfo, pincelam-se com doce de alperce (aconselho a marca Bonne Maman; já experimentei isto com outras marcas menos "nobres" e foi uma desgraça...), sobrepõem-se gomos finíssimos de maçã Golden Smith (bem verde!, com casca!) que depois se pincelam com sumo de limão. Vai ao forno em cima de papel vegetal a 200º, que aos 10 minutos passa a 180º, e depois é deixar atingir o ponto que vêem na foto (entre 25 a 30 minutos de tempo total de cozedura). Podem ser comidas quentes, mas eu odeio. Frias, dão um ótimo snack em substituição desse monstro transgénico chamado "barrinhas de cereais". A sério, não façam mais isso às vossas vidas; comam RØDELAS DE MAÇÃ!

13.11.15

RØCIPES


BACALHAU LIMIANO

Lascas de bacalhau que podem ser restos de bacalhau cozido de uma refeição qualquer subtilmente refogados em azeite, alho, sal, pimenta preta, louro e cominhos. Um fio de natas batidas no fim para encorpar. Eliminar a folha de louro. Rectificação estratégica de temperos e depois reservar. Dois círculos iguais de massa folhada e picada com um garfo e besuntada com azeite. Recheio de bacalhau no centro com uma fatia generosamente redonda de queijo Limiano por cima. Fechar círculo, lacrar o rebordo, reticularizar a superfície com a ajuda de uma faca japonesa. Besuntar de ovo batido e levar a 190 graus de forno durante pouco mais de 20 minutos. Escrever "acompanha com uma salada verde", rir muito com o disparate e parar imediatamente.