13.9.11

CHEF RÓ DE VOLTA AO MINHO

#2.


...e vai directo à horta. Nem pestaneja. Afinal, foi lá que aprendeu a ser humano, coisa que acontece quando se vê animais a nascer, a crescer e a morrer; às nossas mãos, preferencialmente. Não chega ter a parabólica a sintonizar o National Geographic ou ser levado pela professora de Ciências a ver os animais na quinta, para se saber (no sentido empírico da palavra) que as laranjas não crescem nos caixotes do supermercado. Quem se deixa enganar pela glamourização da vida rural e pela ternura das cabrinhas e pelo "grow your own stuff" é porque nunca teve que meter as mãos no estrume. É absolutamente nojento, cheira bué da mal e é feito de cocó. Quando hoje leio relatos apaixonados sobre o advento do "biológico" e do "orgânico", só me dá vontade de rir. Não passa de design. Não passa de "I put a bird on it and now it's pretty". É o querer comer a carne sem lhe ver o sangue. E eu tenho para mim que quem nunca ajudou a mãe a segurar nas asas da galinha para lhe cortar o pescoço e ter o máximo cuidado para não desperdiçar pinga de sangue, não é sequer digno de provar uma galinha "que foi muito feliz porque comeu minhocas que ela própria bicou". Essa galinha deixou de ser feliz a partir do momento em que foi esquartejada e enfiada numa embalagem de design clean, cores a imitar o rústico, "birds on it" e carimbos da UE. O Chef Ró, por respeito ao defunto artista Rogério Nuno Costa (que o pariu), não tem interesse nenhum em enunciar (ou seja, "parecer") um gesto (biológico) como forma de legitimar uma sort of praxis ética, para depois comprar uma embalagem (o "biológico" é uma embalagem) que leva para casa em sacos reciclados guardados na mala do seu BMW-nova-estação e que no fim cozinha da forma mais poluente de que há memória; ao Chef Ró, por respeito ao não tão defunto artista Martin Heidegger [que o par(t)iu] interessa-lhe "SER" biológico. Seja lá isso o que for... Mas o que for, cheirará mal, terá uma consistência viscosa e um aspecto nojento. Ou seja, se é para voltar ao Minho, então é para voltar MESMO, sem glamourizações. A minha mãe avisou-me logo: "Tens a certeza?". E eu: "Tenho!" Acordei cedo (leia-se, antes das 11 da manhã), vesti-me de aprendiz e meti as mãos na terra. O senhor agricultor que veio explicar não me explicou nada, porque o seu método reza assim: "Olhe e faça igual!" Um processo pedagógico muito medievo-contemporâneo que não abre tempo nem espaço para estetizações miguel-bombárdicas, cadernos de notas ou fotografias hipster. As minhas (possíveis...):


ANTES DE COMEÇAR...
Espaço coberto de malmequeres e ervas daninhas, que terão que ser arrancadas. Ao fundo, as couves galegas já crescidas. À volta, árvores de citrinos (laranjeira, tangerineira e limoeiro). Ao canto, o estrume vegetal feito à base de relva, ervas daninhas e restos de comida.



ABERTURA DO ESPAÇO DE TRABALHO
Ficam as flores, ainda em folha, plantadas pela minha mãe. Atrás da cerca, a casa da minha amiga Claudine; consegue vislumbrar-se a plantação de tremoços.



ABERTURA DA LEIRA
Onde serão plantados os vegetais que irão crescer na vertical.



PLANTAÇÃO 1
Depois de estrumada, a leira recebe os vegetais que vão "trepar": tomates coração-de-boi, tomates "cherry", malaguetas vermelhas, pepinos, pimentos vermelhos e pimentos verdes.

PLANTAÇÃO 2
A zona "plana" recebe as alfaces, as alfaces frisadas, as courgettes e as beringelas (que vão "rastejar") e as ervas aromáticas: salsa, coentros, cebolinho e hortelã-pimenta.

Agora é regar, proteger do excesso de calor, da chuva (se vier), das toupeiras (vieram...), das ervas daninhas e dos cães das vizinhas. E ajudar a nascer. Comprometo-me, aqui, a tratar destes vegetais como se fossem animais fofinhos, com olhinhos ternos, patinhas e pêlo. Que são. Bio? Bio é a tua tia que come iogurtes prá prisão de ventre...

2011