24.11.13

Hôte Cuisine — røcipe #2.



GASPACHO (com maçã vermelha)
Segundo (e seguindo) receita de Céu Barrios
Restaurante Monte Alentejano, Montemor-o-Novo




A ironia subjacente ao título — Hôte Cuisine — começou logo na mesa dos acepipes. Ou então dos petiscos. Nunca dos "amuse-bouches" (galicismo com data de validade caducada em 2008), nem tão pouco dos "hors d'oeuvres" (...caducada em 1988). Na verdade, todo o campo semântico culinário que gravita em redor da designada nouvelle cuisine é tão extemporâneo (tempo + espaço) quanto o do nouveau cinéma. Caduco, malgré tout! Escuso-me a desenvolver isto, porque é mesmo assim: óbvio, taxativo e literal. Aos années soixante o que é dos années soixante. E depois este post é para falar do GASPACHO do Monte Alentejano, que resiste a praticamente todas as categorizações culinárias: recuso-me a admitir que seja uma "sopa", e também me custa chamar-lhe "entrada" (é muito mais do que isso), e é complicado chamar-lhe "prato principal" (mesmo quando se faz acompanhar de carapauzinhos fritos), e garanto-vos que não me importava de o comer para "sobremesa", sendo certo que na maioria das vezes gosto de o servir enquanto "intermezzo" entre dois pratos mais substanciais. É a loucura gastro-epistemológica! É por estas, entre outras, que o gaspacho é um prato perfeito.

Em Montemor-o-Novo, quis introduzir os participantes do Indirecções Generativas (a maioria não-Portugueses) aos sabores mais puros-e-duros do Alentejo. Sem merdas. Então antecedi o gaspacho com alguns nobres preliminares — marinei azeitonas em azeite, alho e orégãos secos como se não houvesse Dieta Mediterrânea, fatiei toneladas de Pão (o alentejano, maiúsculo, escreve-se assim), mas também paio, queijos de Niza, e linguiça frita en su gordura, e claro, os grandiloquentes ovos mexidos com espargos selvagens do Monte Alentejano! Ah, e pus os meus servos a encher jarros de sangria "especial". Por norma, chama-se "especial" a algo que não queremos dizer exactamente o que leva, por ser demasiado pornográfico. Quanto ao gaspacho propriamente dito (que servi com petingas fritas), faz-se/fez-se assim:


Num almofariz, esmagam-se 3 dentes de alho com sal grosso e um pouco de azeite. Junta-se 1 tomate (sem pele nem grainhas) a esmaga-se até ficar em papa. Corta-se depois 1 tomate, 1 pepino e 1 maçã vermelha em cubos, tempera-se de azeite, vinagre e orégãos e deixa-se a "marinar" no frigorífico. Perto da hora de servir, juntam-se os dois preparados anteriores e completa-se com água gelada. Rectificam-se os temperos. Rectifica-se o azeite. Serve-se em cima de cubos de pão duro. E gelo! E come-se com as petingas, que devem ser comidas INTEIRAS. Quem não come cabeças, rabos e espinhas deste micro-organismo não sabe o que é Vida™. E por falar em Arte™, no próximo epic-sódio explicarei como se assa um lombo de porco recheado.



Setembro 2013