8.3.14

RØCIPES

AR DO TEMPO™ (A RE-SEITA)
Re-reticular, Re-retiniana, e por isso Re-repetitiva


Grau de dificuldade: Mais putativo que gustativo
Tempo: Estado gasoso em avançado grau de putrefacção
Dinheiro: Neo-Colonialista



Antes de começar

Assegure-se primeiro que ocupa um lugar de ostentação alter-onanista em permanente desconstrução cínica do Real, ambiente propício à confecção desta re-seita que é gore’met, isto é, deixa a carne e come o sangue. Portanto, precisamos para este prato de uma inversão dialéctica do mito do mau selvagem, mas bem fresca, de preferência acabada de decepar, orgânica e de origem protegida, sem pele nem espinhas, sem olhos nem dentes, sem expressão nem impressão, sem pet name. E precisamos também de abraçar, sem medos, esse patamar civilizacional onde já é possível consumir seitan de galinha e tofu de porco, e fazer disso trend, como se fosse mesmo verdade que já estamos a viver no século XXI... Precisamos também de um logotipo retrofuturista, de uns sapatos Portuguezes™ (ou outra coisa qualquer, desde que Portugueza™) e de muito ciberespaço na cozinha. Na verdade, precisamos de uma cozinha megalofísica, que seja amplamente etérea e intensa, excessiva e espiritual, über-imagética e proto-apocalíptica. Sugiro as cozinhas Bosch; o medieval tardio é a estética-pantone para o ano 2008 e o ano 2008 é o ano-pantone para 2014. Ou seja, saem as bio-máquinas produzidas from scratch pela Singer com o alto patrocínio do Masterchef Australia (eu sugiro que com elas se faça uma grande fogueira feudal em praça pública), e entram de novo em cena os hipsters flamengos, espécimes por lavar, conservados em óleo não-vegetal e intensamente processados em intensificadores de sabor (aka Moda). Muito importante: o “ar” e o “tempo” in season são ingredientes-tipo da chamada Dieta Escatológica™ e precisam de pelo menos 1 Petabyte de memória no congelador para serem curados como deve ser; o seu Devir é o arrefecimento global. Ora, estamos a falar de luxos pós-capitalistas que só se conseguem adquirir depois de degoladas umas boas dezenas de gatinhos felpudos, e de construído pelo menos um Ground Zero em betão no local onde antes existia uma indústria criativa agro-alimentar (por exemplo: uma quinta-biológica-de-produção-local com logotipo-e-embalagem-de-produção-estrangeira). Não se pode ficar muito tempo no Sótão d'Avó! — o pó entope as sinapses e a humidade aloja-se no temperamento, atraindo toda a sorte de germes que só querem é "work-in-progress". Ora, o “work-in-progress” é aquela estratégia muito útil para quem não quer acabar o que começou; felizmente, são esses os germes que vão morrer primeiro com a nova Era Glacial, sufocados pelo “ar” fora de prazo (e fora de tempo) que todos os dias ingerem e ao qual insistentemente chamam de Futuro. Não temos pena! Porque tal como a Arte, também a Comida se transformou em Design, e o Ar do Tempo é assim uma forma seguindo desesperadamente uma função: o aniquilamento hostil da espécie humana. Puff! Mas atenção: visto que a História é como a memória da água nos medicamentos homeopáticos — isto é, sofre de Alzheimer —, assim que começarmos a cozinhar o Ar do Tempo, não podemos parar, muito menos para pensar! Linha recta — sempiterno nec otium. Até ao Fim. Assim:


Ingredientes

  • 1 litro de água Deleuze à temperatura ambiente;
  • 2 colheres generosas de Azeitegeist;
  • 1 pacote de batatas fritas Boaventura (sabor: Mediterrânico Pobre);
  • 2 colheres rasas de maionese modernista da marca De Duve;
  • 1 gato de Schrödinger bem escaldado;
  • 1 cubo de caldo iniciático (bio);
  • 500 mg de Soma (embalagem retrô ‘Huxley 1932’, à venda nas lojas de marca Portugueza™);
  • 100 gr de PIIGmentos periféricos de várias cores;
  • 1 dl de matéria negra liquefeita;
  • 2 (ou 3, se pequenas) vergonhas alheias, preferencialmente de caça;
  • Algumas gotas de sumo pontífice da marca Slavoj;
  • Extracto natural de carne de barroco (q.b.);
  • Aroma artificial de fast-food da marca Indie (q.b.);
  • 1 pacote de bolachas Orwell para enganar a fome.

Preparação

Ferve-se a água Deleuze até desaparecer completamente no ar. O excesso de gravidade na cozinha Bosch fará acumular as moléculas no ponto mais baixo do chão, que a gastronomia americana designa por “marca d’água”. Como é quase invisível, e para a descobrir com maior rapidez, assanha-se o gato de Schrödinger com uma bolacha Orwell e deixa-se que o mesmo se enrosque no morto (cuidado para não o esmagar). É nessa superfície côncava que vamos fazer uma composição quântica de 1+1=3 com as duas colheres de Azeitegeist, o pacote inteiro de batatas fritas Boaventura e as vergonhas alheias previamente coradas. Mistura-se tudo, corta-se o mal pelo rizoma e deixa-se repousar dentro de um Bosón de Higgs previamente aquecido. A seguir faz-se um híbrido, batendo muito bem a matéria negra com algumas gotas de sumo pontífice Slavoj, cuja acidez elevada vai fazer a massa talhar e mudar o capital da cor muitas vezes no espaço de meros segundos; sem parar de bater (na mesma tecla), vai-se juntando o aroma artificial de fast-food Indie, provando a cada golpada, para que não fique demasiado parolo, apenas consensual e passível de ser citado com facilidade. Guarda-se a nhanha resultante num comunitário de plástico e mete-se no frigorífico, pronto para esquentar quando for preciso. Entretanto, faz-se uma salada de PIIGmentos temperada com a maionese De Duve e uma pitada de extracto natural de carne de barroco e deixa-se a marinar dentro de um relacional de madeira antiga. Tapa-se com um pano e deixa-se fermentar lentamente até ganhar Rancière. Nesta altura, transfere-se o preparado para dentro de um saco de pasteleiro é-cool-lógico e reserva-se. Por último, faz-se uma regressão do caldo iniciático, aquecendo-o num cyberbullying de metal; enquanto o contador não chegar ao Zero™, ingerem-se os 500 mg de Soma de um só trago, auto-induzindo um transe psicotrópico designado de Cybernoia™, que nos faz acreditar de forma quasi-pacóvia que tudo está interligado e que todos os posts que os nossos amigos publicam no Facebook são sobre nós. À medida que o delirium tremens for desaparecendo, coa-se o caldo iniciático regredido com a ajuda de uma rede social bem fina e verte-se para dentro de um melting pot de aço oxidável (deve cheirar a sangue). Deixa-se o caldo arrefecer e colocam-se então todos os outros elementos da re-seita dentro do melting pot, começando pelo mais poética-do-quotidiano e seguindo em diagonal até ao mais rococó-contemporâneo. Com a ajuda das mãos bem secas, misturam-se todos os elementos com movimentos twerk bem oleados, aumentando progressivamente a velocidade até que a mistura entre em combustão espontânea. Depois de bem flan’beada, prova-se. Estará boa se souber a tudo o que conhecemos, ou seja, se souber a Nada™. 


Empratamento & Degustação

Dá-se ao preparado anterior a forma de um flan, palavra que no seu radical germânico (flado) significa “achatado”. Também a altermodernidade é geométrica e aritmeticamente achatada. E uni-dimensional. O seu umami sabor é praticamente imperceptível. E todas as receitas (e re-seitas) do seu cookbook sabem a Comida™: pizzas com sabor a comida, sopas instantâneas com sabor a comida, gelados artesanais com sabor a comida, noodles-to-go com sabor a comida, caldos Knorr com sabor a comida. “Ar do Tempo” é assim uma espécie de flat cake sem glúten, sem lactose, sem resquícios de frutos de casca dura, sem corantes nem conservantes, sem cafeína nem teína, sem espessantes nem reguladores de acidez, sem adição de açúcar nem aspartame nem xarope de glucose, sem fontes de fenilalanina nem soja geneticamente modificada. 0% de matéria gorda! Ou seja, sabe a Ar, e deve ser degustado de acordo com a etiqueta do Tempo: servido numa incubadora de moda & design, dentro de um saquinho do pão estilizado. 100% parra, 0% uva.



Bom apetite!
Badiou B’adieu, auf Wiedersehen Goodbye!

Chef Rø [aka Rogério Nuno Costa]



Para uma versão desta re-seita profusamente ilustrada pela excelsa Cátia Vidinhas, terá que adquirir a fanzine Flanzine, superlativo projecto editorial com o qual Chef Rø honrosamente colabora! O número 3 é subordinado ao tema "Boca". Consultar AQUI informações sobre os próximos lançamentos e postos de venda.