11.7.14

® [MARCA REGISTADA]


Diário #1.



"Sometimes in the entertainment industry, people believe the cake is more real than the baker." — Judd Nelson



Li algures (ou ouvi, não me lembro) que não existe má comida, apenas crianças estragadas com mimos. Ainda que a frase seja suficientemente atraente para se usar como arma de arremesso (eu já usei), não deixa de ser discutível. Pensei muito nela (ou através dela) durante as duas semanas em que estive em Vila do Conde a cozinhar para (e com) os artistas do Circular/Festival de Artes Performativas (edição de 2012); em igual medida a aceitei e a rejeitei. Assim a frio, e sem grandes elaborações teóricas (para já), agrada-me saber da existência de um dito mais ou menos popular que faz justiça a essa menorização objectual que eu tanto adoro, para colocar a ênfase no observador (neste caso, degustador). Foi isso que aconteceu, mais vírgula menos vírgula, em Vila do Conde. Nada de novo, portanto. Um grupo heterogéneo de artistas que acederam (e cederam) participar numa ideia pouco definida de "catering conceptual": pratos, ou obras culinárias, que reflectissem os seus caprichos, as suas birras, as suas paixões gastronómicas. ® [Marca Registada] operou nesse último reduto da intimidade que é a comida que preparamos e comemos em ambiente caseiro, mesmo que a casa seja emprestada e o chef contratado. Nada de novo, outra vez. Segue. ® [Marca Registada] é/foi sobre comer bem num contexto onde nem sempre a comida é a experiência to remember. À conta desses fenómenos da contemporaneidade festivaleira que são a 'empresa de catering', a 'senha de desconto' (válida no único restaurante com preços orçamentáveis), ou esse ícone da indústria criativa pan-europeia que é o 'per diem', em drástica aliança com a falta de tempo e as nervoseiras pré-estreia, não é raro irmos embora de um Festival com a sensação que comemos mal e porcamente; pior: que nem comemos. Chego a Vila do Conde com uma mala de roupa e três de utensílios de cozinha, e a primeira coisa em que penso é justamente essa: que significa comer bem? É habitual ouvirmos alguém dizer que é "bom garfo", ou que "gosta de comer bem", ou que não é esquisito "desde que a comida seja boa". Ultrapassando o cliché da subjectividade (entre outros ainda mais insuportáveis), que significa realmente "comer bem"? Para lá das teses lançadas pela química alimentar ou pela gastronomia molecular (essa espécie de psico-física quântica dos métodos culinários, plena de mitos e efabulações quasi-espirituais), pouco há a dizer acerca da ética do gosto culinário que ultrapasse os lugares-comuns da educação ou do contexto sócio-cultural. Interessam-me particularmente aqueles pratos que são bons porque sim, os clássicos incontornáveis que "funcionam sempre", aquelas combinações de sabores que já deviam estar inscritas nos nossos genes pré-históricos (diz-se que o gosto universal e macro-cultural pelos churrascos ao ar livre tem origens óbvias no Paleolítico), a comida "da mãe" que é sempre a melhor, etc., etc., etc. Ou seja, se calhar há mesmo "má comida". Porque tudo isto se me apresenta como um (entre vários) caminhos de se chegar à Arte (essa Gastronomia falhada) sem ser através da "arte", excita-me verdadeiramente a possibilidade de encontrar na comida um subterfúgio para destruir alguns dogmas. É essencialmente por causa disso que, nos últimos anos, tenho investido tecno-emocionalmente em várias dimensões que respeitam o universo gastronómico, estudando-as sempre pela rama (não tenho tempo nem paciência para mais), ao mesmo tempo construindo postulados mais ou menos intransponíveis sobre e à volta da comida que gosto de comer e de cozinhar — no espaço de pouco mais de um ano passei de conservadorista anti-Bimby a acérrimo defensor de tudo quanto é processador eléctrico de comida, por exemplo. Também ® [Marca Registada] pretende viver em cima dessas tensões dualísticas, a começar por aquela que opõe "caseiro" a... (qual é o contrário de "caseiro" mesmo?). Desconstruir chavões contemporâneos — do from scratch ao local, do in season ao fresco, do comforty ao artesanal — é o meu modus operandi predilecto. Não interessa o assunto, nem o ponto de partida, nem sequer a conclusão a que se chega, desde que se faça um caminho sinuoso, cheio de arranques histéricos e desacelerações hipotéticas. Não quero respostas (morrerei no dia que as obtiver); interessa-me antes perceber como posso investir na comida que faço esse mesmo pressuposto comunicacional que atravessa as minhas propostas artísticas, sem qualquer pudor em colocar uma linha, mesmo que ténue, a separar as duas esferas. Tal como o teatro, o vídeo, a escrita, também a comida é um veículo. Só me interessa cozinhar assim, "pretextualmente"; de outro modo, seria apenas comensal. E é talvez esta a premissa principal (e primordial) de ® [Marca Registada]: cozinhar comida para os artistas presentes num festival de artes performativas que seja, ao mesmo tempo, sustento e pensamento. Comida que seja o reflexo da obra de um artista, mas atravessada pela minha capacidade de dialogar. É comida, mas podia ser um poema, uma pintura a óleo ou uma renda de bilros. Gosto de frisar este aspecto, porque ainda estou anacronicamente preso à Palavra de Deus, e porque acredito cegamente que não é possível darmos às pessoas o que eles querem/precisam sem falar com elas primeiro.
































OUTRAS NOTAS AVULSAS
[lidas em 2014 a partir de um caderno que se achava perdido]


  • Um apartamento transformado em restaurante.
  • Dono de casa.
  • É sempre o Agora™ que está certo. Mesmo que seja um Agora de 2005, de 2002, de 1997, de 2028.
  • O LIDL é, provavelmente, o melhor supermercado "português".
  • (1) "Mas tu agora és cozinheiro?" (2) "Nunca fui eu outra coisa."
  • Um serviço personalizado em ambiente privado.
  • O bilhete de identidade (gastronómica) de um artista.
  • 16 de Setembro — a colecção privada de Chef Rø, para a colecção privada da Marlene Freitas Monteiro: velouté de couve-flor c/ cebolinho & azeite de noz; frango frito em especiarias, cous-cous de frutos secos, puré de pêra & Roquefort. Não anotei a sobremesa e não me lembro.
  • Comensais: Paulo Vasques, Dina Magalhães, Marlene Freitas Monteiro, Lorenzo de Angelis, Andreas Merk, Yannick Fouassier, Rogério Nuno Costa.
  • Acordar todos os dias às 07:30 da manhã.

[2012]