29.1.15

RECEITAS DE FAMÍLIA, #2

À lavrador
Ou o prato do filho quando volta



Perguntam-me muitas vezes pelo meu prato favorito. Nunca sei responder. Ou então nunca me lembro de dar a resposta certa. Odeio perguntas jornalísticas de resposta rápida. Devolvo logo a pergunta com uma reformulação irónica, ou acabo por escudar-me atrás dos lugares-comuns que melhor preenchem o cinismo que sustenta a minha persona gastronómica. Assim: "Ah, eu gosto de tudo, como bom chef que sou...", ou "Só não gosto de comida mal feita!", ou "Não faço listas de favoritos, não gosto de listas, não gosto de favoritismos...", ou então o clássico "O melhor não é necessariamente bom.", ou ainda um inflamado "Gosto de comer, apenas; o acto/sujeito/desejo sobrepõe-se em importância ao objecto...", and so on, and so on, and so on. Hoje apeteceu-me rosnar para mim próprio um imenso e barulhento "BULLSHIT, Rogério Nuno Costa! O teu prato favorito é a massa à lavrador!" Ou seja, hoje apeteceu-me fazer justiça à promessa (nunca cumprida...) do Chef Rø jamais fazer coincidir a comida que gosta de preparar com a arte que o Rogério Nuno Costa gosta de humilhar. Deviam ser antípodas. Deviam dar-se mal até... Abraçando o paradoxo, afirmo então alto e bom som: "O meu prato favorito é a massa à lavrador!". Não uma massa à lavrador qualquer, claro, mas a massa à lavrador da minha mãe. Já que é para derrubar o bloco de gelo conceptual do Rogério Nuno Costa, que seja com todo o drama hiper-emocional, (auto)biográfico e relacional-sótão-d'avó a que o Chef Rø, por oposição, tem direito! E depois a massa à lavrador é aquele prato que tem tudo o que um prato de comfort food à grande e à Portuguesa (e "à mãe") deve ter, embora seja o acto de a comer que verdadeiramente interessa (bardajão alert!). Aliás, as duas coisas, ideia e acção, são inextrincáveis; só assim faz sentido falar em comida, em arte, em moda, em espiritismo, em jornalismo, em decoração de interiores, ou noutra coisa qualquer. Não vou fazer análises gastronómico-estruturalistas a este prato, portanto, e não vou dizer como se faz (ou se calhar vou, mas de uma maneira diferente da habitual), e nem sequer vou preocupar-me muito em defender a particularidade que subjaz a esta "escolha" (que não é uma "escolha", I was born this fucking way, não é?), nem tão pouco insuflar o ego da minha mãe dizendo que esta é "a melhor" massa à lavrador de todas as massas à lavrador. Este prato é importante porque é a minha mãe que o faz, sim, mas porque o faz sempre numa ocasião especial: quando eu estou imenso tempo sem vir a casa, a dona Custódia enche-me um pratalhão pornográfico de massa à lavrador em jeito de boas-vindas, como que a dizer "toma lá, e lembra-te que é nesta casa que comes coisas destas, que em mais lado nenhum te vão tratar assim, e que precisas de engordar que pareces um pau-de-virar-tripas; enquanto eu viver debaixo deste tecto hei-de sempre dizer que pareces um pau-de-virar-tripas, e que precisas de comer massa com carne, couves e feijões a ver se ganhas cor nessa cara". Eu aquiesço, logo, consinto. No Minho, comer bem ascende à categoria de Religião: comer e calar. Por isso mesmo, a maioria das coisas que aqui podia elencar para explicar o porquê deste prato ser o mais magnificente dos home cooking dishes (do chouriço de sangue caseiro que é vendido clandestinamente num talho que não posso dizer o nome à cremosidade da calda que une todos os ingredientes e que tem a ver com a qualidade geográfica do feijão) terão mesmo que ficar retidas no limbo do inaudito, do intangível e do misterioso. Posso, contudo, dar-vos a lista dos ingredientes, esperando que as imagens abaixo ajudem a cozinhá-los da melhor forma. Só nunca se esqueçam: uma dose cavalar de hidratos de carbono com pelo menos 3 tipos de proteínas por cima é a solução para todos os problemas da vida. Boa sorte!


Cebola, Alho, Louro, Água
Polpa de Tomate, Sal, Pimenta
Massa (macarrão/macarronete ou cotovelo)
Cenoura, Feijão-Manteiga
Chouriço de Sangue, Couve-Penca
Carne de vaca (da melhor qualidade possível)






RECEITA DE FAMÍLIA #1