5.4.15

CHEF RØ DE VOLTA AO MINHO















Em jeito de conclusão à série da intervenções/aparições artístico-culinárias que "interromperam" por 4 vezes a temporada "Chef Rø goes Alentejo", o Ministro da Comida [aka Nuno Miguel] escreve um último testamento para acompanhar a segunda temporada "Chef Rø de volta ao Minho" e inaugurar a terceira e última temporada "Chef Rø na Gralheira". Os 4 nostradâmicos anúncios podem ser revistos nos seguintes links:


Quase 4 anos depois, o quinto e último imperial testamento não esgota as possibilidades de inflexão pós-dramatúrgica do que é ou pode ser o Sensual Absoluto™, mas lança a derradeira pista para a erradicação final e total da Espécie. Pela primeira vez disponibilizado neste blog, o Aviso Final.

Photo ©Dorijan Kolundžija


É CANIBAL, NINGUÉM LEVA A MAL
Discurso do Ministro da Comida – in Quartel General da Idolátrica, Outubro de 2011


O canibalismo edifica as sociedades, e configura o fundamento filosófico e económico de todas as grandes uniões federais, arcana ordem do mundo, secreta conspiração apocalíptica, fisionomia mascarada do individualismo, do colectivismo, e de outras eucaristias dominicais e acordos de reconciliação.

No canibal contemplamos o grande festival da cultura nas garras da profusão de recursos, em autofagia para seu próprio sustento, como consumismo em massa e venda de todos os bens possíveis fornecidos pela forma actual dos mercados auto-devoradores. Este espectáculo de canibalismo acrescenta a dimensão referida por Walter Benjamin, através da qual a humanidade de hoje consegue transformar a sua pior alienação em deleite estético e espectacular. O devir canibal da nossa cultura tem ainda razão mais prosaica, ligada a contingências meramente materiais e demográficas: num mundo em que o crescimento da espécie humana é constante, esta acabará inevitavelmente por se ter a si própria como único alimento.

Os Católicos (futuristas e apocalípticos como sempre) consomem desde sempre dois tabus: não só comem o homem em Cristo, e por ele a humanidade inteira, como também conhecem as delícias niilistas da teofagia, no banquete eucarístico da matança e consumo da carne de Deus, já para não falar dos grandes churrascos da Inquisição. Há muito que entendem todos os mistérios antiquíssimos da transgressão do ser, a morte divina que nos ensina as alegrias do fim do humanismo, porque, se Deus morreu, então o Homem pouco mais é que alimento.

A carne e o espírito de Deus, assim como as barrigas de freira e os papos de anjo, fazem parte da gastronomia tradicional. O espírito, como todos sabemos, é inefável, não tem sabor, surge como silêncio na partitura, e, à semelhança do wasabi nos pratos de sushi, serve para que consigamos distinguir os sabores. Quanto à carne humana, não tem muito que aprender, basta que esta substitua a carne de porco nos pratos mais populares, porque o sabor é exactamente o mesmo. Febras e entremeadas, mãozinhas guisadas, rojões e sarrabulho, sandes de coirato, chouriços, secretos na brasa, banha, e tudo aquilo que nos aprouver fazer com porco, resulta lindamente com carne humana. Podemos encontrar esta relação entre o humano e o porco nas expressões literárias mais antigas, como é o caso da Odisseia, na descrição dos banquetes de Circe, em que os pobres marinheiros davam à costa e eram embriagados com estranhos filtros mágicos de artemísia, coisa que os induzia a ter comportamentos porcinos, para melhor serem conduzidos pelos matadouros da indústria suinícola local.

O inconsciente colectivo também incluiu a antropofagia nas lendas da doçaria. Não era em vão que a casinha de chocolate albergava uma velha confeiteira antropófaga com predilecção por crianças — é que, como todos sabem, as carnes infantis são sempre mais delicadas e propícias à execução do medieval “manjar branco”, pudins e gelatinas, extraídos após longas horas de fervura em lume brando. Sabemos também que os Astecas, para além de venderem carne humana nos mercados — fresca, em salmoura e fumada — possuíam, na sua gastronomia, uns biscoitos secos muito populares, confeccionados com mel e corações humanos desfiados, que consumiam nas festas solsticiais.

Nos nossos tempos, a morte do humano não deixa de ser celebrada com requintes de androfagia. Rick Gibson entendeu que comer carne humana consubstancia o rito de passagem em que o indivíduo penetra na esfera transpessoal. Podemos datar nos anos oitenta, através das suas performances, a origem das primeiras receitas de gastronomia pós-humana. Estas consistiam em pequenos hors d’oeuvre de pâté de amígdalas de criança, cobertos por finas fatias de testículos frescos de adulto, e deglutidas perante uma plateia atónita e incrédula. Como sobremesa para tal petisco surge hoje, como ‘retorno do recalcado’ em versão light, o mais recente gelado de leite materno, outra controversa receita a denunciar, claramente, que estas delícias se tornarão, em breve, próprias para o consumo do Zeitgeist.

Perante os cenários negros que se aproximam e que, de certa forma, confirmam temas niilistas antigos, o indivíduo só pode encontrar apoio e raiz na sua natureza mais profunda, no "ser", na identidade primordial e imutável. A afirmação de fidelidade a este ser é o que dá conteúdo à moral niilista, é como que a sua orientação geral por assim dizer. Na realidade ôntica avistamos a primeira terra seca em que o verdadeiro canibal não se pode deter, uma vez que a mesma indeterminação que encontramos em relação à crença na 'Vida' aparece novamente com o problema ontológico. Sob o signo do puro "ser", devemos querer assumir e afirmar absolutamente que somos, mesmo quando, na nossa natureza, não há nada que corresponda ao ideal positivo do super-homem anunciado pelos filósofos, quando a própria vida e a sua corrupção mostram como destino a perversidade, o declínio e a ignomínia. É por isso que, se alguém adere ao referido princípio do ser, o único valor ético real seria o da "autenticidade"; em última análise, aquele que, sendo decadente por natureza, consegue ser autenticamente ele mesmo, e tem a coragem de existir absolutamente em si mesmo, será maior do que aquele que gosta de desenvolver uma "superioridade" evolutiva, que não se fundamenta em autênticas formas de estar, e que se tenta agarrar à postura hirta da cultura programada e esterilmente iluminista.

Vejamos, como exemplo disto, a antítese ética do canibal: o “Vegetariano”. No vegetariano nada há de autêntico, tudo é parecer em vez de ser, exumação do espírito bragantino serôdio, com as suas as ordenações e chulé rançoso de Maria da Fonte — tudo nele é proselitismo, fome de carne transformada em histeria militante. E, no entanto, o vegetariano encarna os mais finos ideais do super-homem iluminado, búdico, a tresandar a ideias cegas de tanto Aufklärung, e por isso não consegue enxergar que um mundo constituído apenas de animais herbívoros provocaria a extinção das plantas, e em poucas semanas colapsaria em termos ecológicos. A estes opõe-se a lógica sapientíssima da antropofagia, porque não há melhor forma de apagar a pegada ecológica da humanidade do que comer, de coentrada, os pezinhos que as marcam no ecossistema. Porém, não há seita ecológica New Age que não professe, de forma agressiva, o dogma da alimentação exclusivamente vegetal. E esta é uma mania que tenta ressurgir no Ocidente desde os clérigos pitagóricos, como sinal de boas maneiras próprio das almas espiritualmente mais evoluídas em conflito com as criaturas perdidas que consomem carne, sem sequer pensar no consumo de carne humana, actividade própria de seres demoníacos. Nada poderia estar mais longe da verdade! Sabemos bem que, desde os tempos védicos, a antropofagia está ligada às mais altas divindades como Saturno, Durga, Dionísio e Osíris, e é apanágio das confrarias esotéricas mais insignes, como é o caso dos tântricos Kapalica na Índia, passando pelos santos antinomistas das grandes tradições religiosas, os xamanes do Árctico, as Bacantes, ou os Sufis Malamathia. Não será pela sua retórica indigente, parca de argumentos, que os vegetarianos nos vão convencer a enveredar por esse vício ascético-Übermensch tão apropriado a bestas herbívoras como Hitler. Só as genuínas elites alcançaram cumprir a antropofagia sensual, que traz em si o mais alto desígnio da vida e impede todos os males reconhecidos pela psicanálise — os males catequéticos.

O canibal enforma igualmente uma qualidade contrária a essa ideia de que qualquer um pode ser o que quiser, desde que se aplique, se eduque e treine nesse sentido, e manifesta-se plenamente incompatível com o self-made man da cultura do materialismo dialéctico tardio. O Canibal SABE bem que a "abertura de espírito" da sociedade mercantil, tantas vezes apregoada, é apenas a máscara da sua falta de forma interior — essa omeleta de mioleira cozinhada em microondas de aparelhos televisivos. O mesmo vale para o seu "individualismo". O individualismo e a personalidade não são a mesma coisa: o indivíduo pertence ao mundo informe da quantidade, a personalidade ao mundo superior das qualidades. O canibalismo assume-se como resposta a toda a cultura que é a refutação viva do axioma cartesiano "penso, logo existo": porque hoje só florescem indivíduos que não pensam, mas existem. O consumista, “psique” pueril e primitiva, no seu egoísmo imbecil de máquina desejante, não tem forma característica, está assim sujeito a todo o tipo de padronização programada. Porém, o antropófago SABE que a estrutura da história não é evolutiva, mas sim cíclica. Na realidade, nunca saímos das cavernas do Paleolítico. Ele está ciente de que as civilizações mais recentes não são necessariamente “superiores” àquelas ditas “primitivas” porque se estruturam em torno do ideal canibal — pelo contrário, estas mais recentes podem ser, de facto, senis e podres. Por outro lado, há sempre uma correspondência necessária entre os estágios mais avançados de um ciclo histórico e os mais primitivos. Quando os filósofos idealistas nos falam do Fim da História, não entendem que estão a viver a fase final da Europa moderna, a Europa do “faroeste”, no sentido de reductio ad absurdum dos aspectos mais negativos e caducos da civilização ocidental. O que antes existia de forma diluída, é ampliado e concentrado, manifesto na atrofia mental da incompreensão para com todos os interesses superiores, nos horizontes limitados, circunscritos a tudo o que é imediato e simplista, com a consequência inevitável de que tudo seja banalizado, básico e nivelado para baixo, até que esteja privado de toda a vida intelectual.

Por tudo isso, e remando contra o realismo social, vestido e opressor, cadastrado por Foucault, preferimos a realidade sem complexos, sem insânia, sem profanações e sem presídios do canibal. Refutamos assim a vida que decai no mero mecanicismo, previsível, endividada até ao tutano no Entrudo entediante dos mercados, em que o sentido do “eu” pertence inteiramente ao nível físico da existência. Só assim o Europeu típico do Fim da História deixou de ter dilemas espirituais, ou complicações: é um conformista idiota. Esta mentalidade patética só pode ser comparada a algo jovem e novo por equívoco. Como se atreve pois esse ignorante a condenar os ditos primitivos Canibais? Esses que, efectivamente joviais, reclamam para si a transgressão das transgressões?

Uma estatística médica recente, feita na União Europeia, demonstrou que 85% dos jovens são desprovidos de desejos sexuais fortes; em vez de satisfazerem a sua libido, procuram prazer narcisicamente no exibicionismo, na vaidade e no culto estéril do fitness e dos Health Clubs. Por causa da sua condição financeira de pura penúria, o “jovem”, menor de 45 anos, é sentenciado a um certo método de sobrevivência nada apetecível. Mas, perpetuamente contentinho por ser aquilo que é, ergue a sua pelintrice vulgar à categoria de "estilo" de vida cool: a boémia. Mas a "boémia", aquém de ser solução original, nunca é realmente sentida a não ser na continuação da ruptura irreversível com o meio cultural. Os adeptos da boémia cingem-se, pois, a consumir a tradução fast-food do que não passa, na melhor das hipóteses, de medíocre remédio. Até o escárnio das velhinhas saloias, por isso, eles merecem. Mais valia que se dedicassem a comer-se uns aos outros, porque, no fundo, tudo o que fazem se reduz à transacção canibal dos valores simbólicos, mas pervertida, mascarada. Deste modo, no século XXI, o amor foi-se transformando paulatinamente na caricatura do canibalismo.

O mesmo se passa na política.

Basta removermos a máscara da "democracia" para se tornar claro em que medida esta é apenas o instrumento de uma oligarquia que prossegue o velho método de “acção indirecta”, assegurando a possibilidade de vampirização e fraude em grande escala dos muitos que aceitam um sistema hierárquico, porque o confundem com justiça e mérito. No entanto, o canibal é o contrário de todas estas catequeses. Estamos fatigados de todos os cônjuges católicos, desconfiados e dramáticos, porque Lacan acabou com o enigma do desejo e com outros temores da psicologia Pop. Afinal, o que nos derrubava a verdade era a fatiota, a gabardina entre o mundo interior e o mundo exterior. Todavia, o canibal pode bem progredir, em reacção contra o homem engravatado, neste país de filhos do sol, amado com toda a impostura da saudade, pelos imigrantes, pelos traficantes e pelos turistas, na egrégia nação da fava rica. Nele habitará feliz, porque nunca tivemos realmente gramáticas, nem ortografia, nem bibliotecas notáveis, nem academias. E nunca soubemos o que era educado, suburbano, limítrofe ou metropolitano. Calaceiros no mapa-múndi e à beira mar cultivados, a nossa sinceridade já é intrinsecamente participante na rítmica religiosa do canibal.

O juízo recusa-se a assumir a consciência sem o corpo, e o antropomorfismo exige a vacina canibalesca. Para nossa estabilidade, contra as religiões meridionais, as inquisições visíveis do império europeu, só devemos observar o mundo oracular. Basta exagerar o nosso típico atavismo ligado às coisas salazarengas e ir mais longe, recuar em frente para a origem perdida, a Idade do Ouro, o tempo em que possuíamos a justiça pela codificação da desforra, as ciências como Magia codificada, e metamorfose contínua do tabu em totem, e pensar que nunca fomos catequizados, gostamos é de procissões e romarias. Às matronas minhotas de bigode não falta nada, basta que voltem ao estado canibal, porque de resto já têm tudo: a linguagem surrealista; saber transpor o enigma e a morte com o amparo de algumas estruturas gramaticais simples, mesinhas e adivinhação; as migrações como fuga aos estados tediosos, às escleroses urbanas, às conservatórias do registo predial; mais a ignorância verídica das coisas e o espírito de autoritarismo ante as crias. Muito antes dos Fenícios, dos Romanos ou dos Egípcios descobrirem o império, no território lusitano já se tinha descoberto a felicidade — e é isso que temos de reencontrar, porque matar a fome é a prova dos nove.