10.2.15

RESTAURANT DAY



Ou o carnaval dos food lovers

Eu já andava a namorar o Restaurant Day desde o ano da sua fundação (Helsínquia, 2011), quando ainda se chamava Ravintolapäivää (no original Finlandês) e estava prestes a tornar-se no evento internacional que é hoje. Dois anos depois, numa das minhas viagens espirituais à Maamme Suomi, em Agosto de 2013, decidi participar: juntei-me a um outro ex-Masterchef (Klaus Ittonen) e juntos abrimos o nosso pop-up restaurant de comida luso-finna na Galleria Nunes, no número 17 da Pohjoinen Rautatiekatu de Helsínquia. Na edição seguinte (Novembro), repetimos a experiência, mas "ao contrário": veio o Klaus a Portugal e juntos servimos um menu de degustação de pratos finlandeses com um toque "minhoto" na Miss'Opo (Porto). No início do ano corrente, dei o passo óbvio: tornei-me embaixador do evento em Portugal. Quem me conhece, sabe que eu tenho uma afinidade meio doentia com a Finlândia e outra não menos fetichista com a comida, por isso não é de estranhar que me tenha apaixonado por um projecto que junta estas duas coisas através de um filtro que explica quase tudo aquilo que faço/digo: por um lado, a total (e radical) democratização da prática gastronómica; por outro, a "hipsterização" dessa prática (vivam as redes sociais!) colocada no único espaço onde ela é suportável — a relação que se estabelece entre as pessoas, com as pessoas e para as pessoas, através de um elemento-pretexto que é a comida. Tudo o resto é, como aliás o subtítulo do projecto em Inglês sugere, "carnaval": dos temas que se escolhem ao tipo de comida que se serve, do espaço que se ocupa ao tipo de clientes que se atrai, das estratégias de "marketing" caseiro que se inventam aos dispositivos documentais que se montam para capturar momentos especiais às garras do efémero. Tudo isto me excita por razões diversas, sendo a primeira (e mais importante) essa dimensão meramente enunciativa da "marca" Restaurant Day, que torna os participantes/aderentes (e respectivos "clientes") os verdadeiros protagonistas do evento. Como se de um simples hashtag se tratasse, Restaurant Day funciona como uma espécie de carimbo, ou seja, uma marca de identificação, um símbolo universal que comunica uma ideia de pertença, assinando uma identidade global quando activado pelos participantes. Trata-se de um projecto sustentado por uma qualquer ideologia comunitária, sim, sem no entanto cair nos lirismos utópicos ou ceder às perversões sócio-políticas habituais nesse tipo de empreendimentos... É que os protagonistas do evento são MESMO os participantes, não são os gurus finlandeses da ideia, não são os promotores/embaixadores regionais, não são os administradores das dezenas de websites (páginas Facebook, food Tumblr's, Flickr's e Pinterest's alusivos ao tema/evento), não são os food bloggers que se aproveitam do hype inegável do acontecimento, e também não são os inúmeros prémios (turísticos, gastronómicos e outros) que a organização já arrecadou na Finlândia durante os últimos 3 anos.

Contrariamente a outros eventos de formalização similar (e existem às centenas...), o Restaurant Day aposta numa total "desresponsabilização" autoral dos impulsionadores iniciais (a quem cabe, apenas, a gestão do website, a definição das 4 datas anuais e a manutenção dos dispositivos documentais e de arquivo). Ou seja, não há, tradicionalmente falando, directores, CEOs, gestores de marca, ou RPs. Também não há sponsors, nem patrocinadores oficiais. O Restaurant Day é, na sua essência, um ORGANISMO, mais do que uma organização. E ninguém ganha dinheiro com isso, a não ser, lá está, os participantes — amadores ou não, experimentam o seu "negócio" culinário durante 24 horas, 4 vezes por ano, vendendo os seus signature dishes onde querem (em casa, na rua, numa galeria, num centro comercial, num parque de estacionamento...), quando querem (ao pequeno-almoço, ao brunch, ao almoço, ao jantar, à ceia, ao after hours...), a quem querem (amigos, desconhecidos, colegas de trabalho...), e como querem (de bicicleta, à janela, em modo supper club, ou dinner party, ou vernissage, numa roulotte, numa barraca de feira, na mala do carro, no vão de uma escada, em modo pregão...). Devem, contudo, praticar preços acessíveis — mais do que competir directamente com os restaurantes convencionais (que podem, aliás, participar, desde que realizem um menu especial a um preço especial para esse dia), pretende-se criar alternativas ao que já existe no roteiro gastronómico das cidades. A questão do preço não é, de todo, um dado banal; trata-se de um pressuposto ético em cima do qual se ergue toda a filosofia Restaurant Day: um organismo feito por todos, para todos, e com todos, sem os elitismos totós que assistem à grande maioria dos eventos gastronómicos de grande envergadura.

Restaurant Day é assim sobre o prazer de estar próximo, é sobre a partilha, é sobre a felicidade, é sobre a oportunidade de construirmos um Mundo melhor, é sobre o espírito de equipa, é sobre a solidariedade, é sobre o sentido próprio da humanidade, é sobre a vizinhança, em suma, é sobre todas as coisas que fazem parte do campo semântico do "piroso". Sem cedências! Restaurant Day abraça isso tudo com convicção, e faz disso bandeira e imagem de marca. Porque Restaurant Day acredita mesmo que é possível mudarmos o Mundo se nos juntarmos à volta de uma mesa a comer; na sua missão subsiste essa maravilhosa utopia de dar aos 4 dias anuais (um por cada estação do ano) a mesma dimensão que têm outros feriados ou celebrações internacionais (como o Natal, por exemplo), quando toda a gente, esteja onde estiver, sabe o que tem a fazer, e celebra sem ter que dar justificações a ninguém. E o Restaurant Day é isso, só que sem credos, sem política, sem geografia e, acima de tudo, sem Kapital. Mais imagem que coisa, Restaurant Day é uma ideia geral/global que se particulariza por milhares de ideias possíveis, no Mundo inteiro. É suficientemente flexível, portátil e partilhável para dela se fazerem todo o tipo de interpretações/recriações, e é, acima de tudo, de acesso livre e descomprometido. Uma materialização quase perfeita do meu universo sensível (artístico e não só!), que me predispus a ajudar a disseminar em território português. Convido assim todos os food lovers de Portugal a juntarem-se ao resto do Mundo e a inundarem as ruas de comida já no próximo dia 15 de Fevereiro de 2015! 








COMO FUNCIONA?
Qualquer pessoa, seja qual for o seu background profissional, pode abrir o seu pop-up restaurant durante um dia. A ligação ao evento geral consubstancia-se numa simples inscrição online, à qual poderão posteriormente aceder, através do website ou da aplicação para smartphones, os possíveis clientes, estejam onde estiverem. Nos seguintes links pode ser encontrada toda a informação necessária:

WEBSITE [inscrições, normas, informação geral]
FB INTERNACIONAL
FB PORTUGAL

Para esclarecimento de dúvidas, podem pedir ajuda aos embaixadores:

Rogério Nuno Costa [Porto/Norte]: rogerio.nuno.costa@gmail.com
Filipa Valente [Lisboa/Sul]: filipa.valente@tasteoflisboa.com



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