6.4.16

VARIAÇÕES




No Verão de 2011, no contexto do Festival Encontrarte, juntei-me a um dos projetos musicais do meu irmão (Behave!) e recriei uma das músicas mais ingenuamente belas do António Variações. Não sou cantor, tal como não sou cozinheiro, mas fiz o papel merecer-me a voz. Ingenuamente. Depois peguei nas memórias visuais todas que tinha do tempo em que não crescia, em Amares, e fiz um videoclip-memória, meio para promover a temporada Chef Rø de volta ao Minho, meio para provar a mim próprio que era capaz de cometer mais um sacrilégio artístico, mesmo que com Lisboa definitivamente atrás das costas. Uma memória-VHS arranhada pelas variações de uma "modernidade" que eu queria tanto abraçar. Assim como o António, esse entrelaçamento quântico entre o rio Cávado e os canais de Amesterdão. Vi-o atuar, em Amares, poucos meses antes do seu desaparecimento. Eu tinha 6 anos, o meu irmão tinha acabado de nascer. É mais presente na minha memória o ruído extemporâneo das pessoas, dos carros a passar na estrada nacional, do palco minúsculo, e do coreto apinhado de gente para o ver melhor, que o António ele próprio; dele guardo apenas uma imagem enevoada, longínqua, um homem pequeno, num palco pequeno, numa terra pequena. E videiras verdejantes a esconder as uvas e a fazer o resto da moldura pitoresca. Anos mais tarde, comemoravam-se os 10 anos da sua morte ao som do so-called "rock alternativo" (que terá visto nele inspiração para um disco de versões), ouvi "Olhei Pra Trás" (o original) pela primeira vez, e acreditei que a letra havia sido escrita para mim. Um daqueles delirantes clichés adolescentes, mas em post mortem, fora do tempo, sem poster colado na parede do quarto, (e eu a pôr-me a andar para Lisboa à primeira oportunidade), sem carta de recomendação, sem roupa contada, mas sobretudo sem medo nenhum, sem olhar pra trás, porque em frente não havia mais nada, não. E não havia, de facto. Só percebi isso quando regressei, em 2011. E este vídeo é, também, e por isso, uma celebração. Um aniversário de várias pessoas e de várias décadas, em modo Intercidades descarrilado:



Tentar fazer isto em casa:

Lembro-me de haver vários tipos de uvas diferentes, e de se comerem cachos inteiros daquelas mais pequenas sem necessidade de retirar os bagos aos caules, como se de flores se tratassem, lembro-me de se darem pontapés nos castanheiros para os ouriços caírem mais depressa, lembro-me da árvore que dava laranjas e limões ao mesmo tempo, lembro-me das ameixas que tinham sangue dentro, e do primeiro arbusto que deu kiwis, e lembro-me dos ovos de pato, e das saladas com cebolo (versão grosseira do cebolinho), e do vinagre de vinho tinto, e do chá de limonete fresco, e da sopa de couves e feijões feita no pote de ferro, ao lume, e lembro-me do lume, claro, e dos chocolates Milka trazidos pelos Franceses, e do cous-cous luso-franco-tunisino da tia Rucas, e das extravagâncias do Natal e da passagem d'ano regadas a champagne, ostras e bolos cheios de manteiga, e lembro-me do arroz de cabidela, e dos coelhos à caçador, e das bordalesas, e dos sarrabulhos, e do vinho que tingia, e dos morangos azedos, do arroz de grelos, e do arroz de netos, e da sopa de nabiças, e da galinha velha, e das abelhas, lembro-me dos pepinos com sal, e da cidreira, e das batatas com terra, e dos porcos, e da massa-à-lavrador, e das batatas fritas em espiral que acompanhavam a costelinha da dona Lurdes, e dos crepes só com açúcar e limão, e das laranjas que não se deixavam descascar, e das azeitonas roxas, rosas, verdes, brancas, vermelhas e pretas, e lembro-me da crista de galo cozida em vinagre, e da orelha do porco com salsa e cebola, e das omeletes de tortulhos, e das saladas de arroz de levar para a praia, e dos ovos cozidos da Páscoa que são inegavelmente diferentes dos ovos cozidos do resto do ano, e dos almoços de forno ao domingo, e dos almoços de sobras à semana, e do queijo limiano com tudo, e das sandes de picante, e das latas de goiabada, e do cheiro a café de saco, e das tangerinas amargas, e dos peixes de rio, e do arroz de tordos, e do pudim molotov, e do pão que se chama bolo, e da broa de milho, e das pataniscas de bacalhau, e do arroz a fugir do prato, e da salada de feijão moleirinho, e do leite creme que se chamava só creme, e dos bolos de romaria recheados de marmelada, e do pão torrado na brasa, e da Planta, e das Gorila, e das Pala Pala, e das malgas de cevada, e dos testos das panelas, e dos farnéis de Fátima, e dos tremoços da 'vó Ana, e das lentilhas da 'vó Linda, e da sopa de feijão verde e tomate da tia do Porto, e dos rissóis da tia Júlia, e dos bolos da madrinha, e do pão frito com ovos, e das tripas enfarinhadas, e dos farinhatos fritos em banha, e da água da fonte com limão do limoeiro, e lembro-me das coisas que não gostava e que por isso não cabem nesta lista. Lembro-me de me lembrar de Amares através deste mapa de sensações gustativas, e de ser essa, sempre, a única tangibilidade que ainda me aproxima daquele lugar. Disso e das pessoas, claro. Algumas. Voltar a Amares é — continua a ser —, voltar atrás. Celebrar os aniversários todos outra vez. Em contagem crescente. Sem futuro. Até perdermos o pé e desistirmos de o pontapear. O futuro. Porque em frente não havia mais nada, não:











Chef Rø . 2016 and beyond