15.6.16

CHEF RØ DE VOLTA AO MINHO

De Amares...


Não tem denominação de origem protegida, e se calhar não precisa. É pequena, feia, difícil de descascar, acumula sujidade na casca quando cai da árvore (complicadíssima de retirar mesmo com várias lavagens), murcha muito depressa... Em suma: um filme de terror para as diretivas da UE. Em contrapartida, é muito doce (sim, mais doce que a congénere algarvia), excessivamente sumarenta (desfaz-se nos dedos ao descascar), mais-que-perfeita para se deixar transformar em doces e sobremesas e refrescos e marinadas. É uma laranja naturalmente "gourmet", como já lhe chamaram, e um dos ex-líbris, pouco divulgado, do concelho de Amares. Cresce numas laranjeiras muito feias, meio raquíticas, nos recantos mais improváveis dos quintais, e vai-se deixando cair nas bermas das estradas. Não se encontra à venda em supermercado nenhum, só nas feiras semanais de uma série de terriolas minhotas e, claro, na estrada nacional que liga Braga ao Gerês e que atravessa o concelho de Amares de uma ponta à outra. É sobretudo nas freguesias de Dornelas, Goães, Bouro Santa Marta e Bouro Santa Maria que se vêem mais senhoras sentadas à beira da estrada, a acenar com laranjas na mão aos carros que passam. Não se sabe muito bem como é que cá veio parar, por que mutação mais ou menos genética se desenvolveu, e como conseguiu sobreviver ao clima muito pouco solarento e excessivamente chuvoso das terras de entre Homem e Cávado. É também esta qualidade meio alienígena que lhe dá um encanto especial... Em Julho de 2011, acabado de regressar ao Minho, o Chef Rø juntou-se ao Pedalares, grupo de aficionados das BTT que percorre os lugares mais inauditos do concelho, desenhando rotas que ainda ninguém traçou e dando a conhecer relíquias, como por exemplo a laranja. A de Amares. Há mesmo uma rota com o seu nome. Foi essa que fizemos, filmámos e fotografámos:

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Captação & Edição: Chef Rø [aka Rogério Nuno Costa] | Performers: João Brandão, João Silva, Carlos Silva, Moisés Veloso, José Oliveira, Filipe Moisés Vieira | Documentação: Daniel Fernandes | Agradecimentos: Pedalares, Festival Encontrarte 2011.



Bolo Cheio de Laranja de Amares

4 laranjas de Amares colhidas algures entre Maio e Agosto, durante um passeio de BTT pelos declives mais verdes do concelho | 3 ovos inteiros (grandes) | 400 gramas de açúcar amarelo | 200 ml de azeite puro virgem extra | 240 gramas de farinha com fermento + 1 colher de chá de fermento | casca de laranja de Amares desidratada no forno (q.b.) | 100 gramas de icing sugar.

Lavar muito bem as laranjas de Amares com a ajuda de uma escova, para retirar toda a sujidade da casca. Abrir 3 laranjas em 4 metades, retirar as sementes e colocar num liquidificador (casca incluída!) sem perder nenhuma gota de sumo. Juntar depois os ovos, o açúcar amarelo e o azeite, batendo tudo na velocidade máxima até se conseguir uma mistura homogénea e sem grumos. Colocar a mistura num recipiente e ir juntando a farinha e o fermento previamente peneirados, envolvendo suavemente. Picar casca de laranja de Amares desidratada (3 a 4 colheres de sopa) e incorporar na mistura. Untar uma forma de buraco com manteiga e farinha, colocar a mistura do bolo e levar ao forno a 200º durante 30 minutos, ou até o palito sair seco. Retirar o bolo do forno e deixar esfriar. Desenformar e cobrir com um glaceado feito com o sumo da quarta laranja e 100 gramas de icing sugar. Quando o glaceado secar, decorar com tiras muito finas de casca de laranja desidratada. Come-se como bem se entender, mas é perfeito com um chá gelado de limonete [aka verbena].