22.7.16

A DIETA DA COMIDA™


PARTE II:
SOBRE-A-MESA



Enquanto as pessoas comiam e falavam sobre o que comiam (e, concomitantemente, sobre o facto de estarem a comer), o reflexo dessa ruminância tautológica era projetado em espelho, paralelo aos olhos, perpendicular à fome, de frente para a comida e de costas para os comensais, uma diagonal à cidade de Lisboa. Dramaturgia caleidoscópica:


AVANT-PROP'S
O cosplay, ouコスプレ (Japonês: kosupure), é a “palavra-valise” que aglutina costume com play (ou com roleplay), e refere-se a uma atividade lúdica praticada por seres humanos que gostam de fazer de conta que são personagens (quase sempre fictícias). Essas personagens podem vir dos universos anime e manga, mas também dos videojogos, do cinema, da música, da banda desenhada, do teatro de época (ou da época), ou até da gastronomia — movimento recente que dá pelo nome de Cozeplay™. Mas ao contrário do que se lê nos artigos Wikipedia, o objetivo do jogo não é interpretar/representar da melhor maneira possível os “bonecos” que se escolhem; o objetivo é dar forma (sem conteúdo) a essa ideia genérica e trans-epocal a que damos o nome de “festa temática” (conceito operativo que está na base de toda a produção cultural/artística desde que o homem é Homem até à atual idade). Ou seja, todas as performances são “festas temáticas”, presas a um dress code que se aceita cumprir: do cocktail de honra ao aplauso final, do ensaio de leitura à leitura da crítica no jornal. Este jantar propõe-se a re-instaurar um outro Parque, onde cozeplayers™ escolhidos a dedo se juntam em torno de uma refeição paleolítica, investem num retorno do Homem ao homem, e participam da festa temática primordial, aquela cujo tema é: Festa Temática.

WATER DISNEY
Este jantar é um retro-playground desenhado por Chef Rø & Nuno Carrusca, dois dos mais obscuros water-designers do universo an-artístico, e abre (com)portas no dia 1 de Julho de 2016 para receber a primeira amostra de 80 exemplares da Raça Humana que será submetida ao placebo culinário PISS’TORY REPEATING™. Para a destruição dialéctica das bipolaridades históricas, e para a instauração de uma nova ordem ética, estética, política, sociológica e filosófica global. O placebo erradica a ética do gosto, a ambiguidade, a narrativa (des)instituída, a criatividade, a originalidade, a ironia, todos os coming backs e respectivos novos pretos, a gaseificação da arte, a solidificação industrial da mesma, o conceito genérico (logo, comercial) de "performatividade", a hipsterização das práticas artísticas (ou seja, a redução da arte, e do resto, à disciplina do Design), a responsabilização do espectador, o sistema de "castas", a relação do eu com o outro, a confusão secular entre Arte e Desporto (também conhecida por "medalhização" mediática do art-leta), a arte que se parece com arte e a que se parece com coisas que não são arte e, de um modo geral, todas as práticas para-artísticas (da recepção à crítica, da produção à promoção) que se inscrevem em regimes de primeira ou de segunda via, ou seja, bipolares. Por outras palavras, o placebo erradica o Século XX, e todos os séculos para trás, e todos os séculos para a frente. Também erradica o Presente. O que significa que este jantar é quanticamente a-temporal, a-espacial, a-histórico e a-moral. Ou seja, é a-estético, porque est(ético): o copo (d’água) não está nem meio cheio nem meio vazio — é só um copo.

DIETA TROGLODITA
CALIBANISMO™ — Vem de Caliban (vide “A Tempestade”, de William Shakespeare) e significa qualquer coisa como “comer a carne sem lhe ver o sangue”. Ou então: “Autofagia, isso até eu fazia!”. Nesta feira popular neo-darwinista, a carne é servida crua, não sem antes ser aspergida com intensificadores antibióticos de sentido, para depois ser cortada em blocos ergonómicos geometricamente iguais: serve todos os palatos retro-futuristas e segue todas os hipsterismos gastronómicos: paleolíticos crudívoros, veganos microbióticos, tofu-lovers suburbanos e outros sucedâneos alimentares cultivados nessa gigantesca quinta biológica que é a World Wide Web. Tal como a Arte, também a Gastronomia se transformou em Design. E bate com o pé direito no chão, marchando assim: “Demagogia, silêncio calma, feitiçaria...”. Existe um missing-link do tamanho de um abîme que separa a Arte da Decoração de Interiores. Venha descobri-lo, comendo.

MYOPIA IS THE NEW UTOPIA
GASTRONOMIA MÍOPE™ — Tudo o que parece, não é. Neste hospital temático, redime-se o pecado da auto-ilusão. Uma só refeição é suficiente para deslocar a retina 3D do paciente, substituindo-a por uma visão multidimensional. Terminado o período de ovulação quanticamente assistida, o paciente deixará de sentir que está dentro, para passar a sentir que está (de) fora. Que é transparente. Que observa os dois lados, o meio e o conjunto. Contra-indicações: espécimes humanos com elevado grau de deficiência binocular e/ou que apresentam comportamentos maníaco-depressivos quando expostos à crise da originalidade.

100% PARRA, 0% UVA
READYMADE FOOD™ — A preguiça é o novo avant-garde. Ou o síndrome de Bartleby aplicado à Arte, elevando-a à categoria de Gastronomia. O contrário já foi feito.

TROMPE D'OIL
AZEITEGEIST™ | Faking it ‘til becoming it! — Na dancefloor do Pólo das Gaivotas distribuir-se-ão drogas psicotrópicas totalmente gratuitas a todos os comensais que acreditam ser possível cozinhar com o coração, que fumam pensativos cigarros, que fingem as dores que deveras sentem, que passaram férias em Benidorm em 1994, que sonham emigrar para o continente asiático, que citam Paulo Coelho no Facebook, ou que subscrevem a est(ética) do sótão d’avó. Menu de degustação interpassivo servido a bordo de um rav’ião Faro/Frankfurt com escala em Ibiza. Inversão dialéctica do sonho mediterrânico: vai o Azeite (Arte) em car(r)inhos de choque até à Floresta Negra (Design).

SOBRE-A-MESA
A dupla tautologia, em vídeo:

SOBRE-A-MESA™
SOBRE-A-MESA™ © A Dieta da Comida Nuno Carrusca feat. Chef Rø [Jantar Nómadas no Baldio, Julho 2016]
Posted by Chef Rø on Friday, 22 July 2016


A DIETA DA COMIDA
Num mundo onde proliferam (e imperam) categorizações alimentares cada vez mais restritivas e normativas, e sabendo que a maioria são acessórios de moda mais que posicionamentos filosóficos (ou então posicionamentos filosóficos que são acessórios de moda), interessa propor um #regresso_à_comida. Isto é, um regresso à sensualidade absoluta e à potenciação dos sentidos intrinsecamente gustativos, sem ilusões de semiótica, sem est(ética), só sensação. Este Jantar, ao afirmar-se mais pela relação que pela função, irá servir comida; é esse o seu “conceito”. Consequentemente, aos comensais é pedido que comam, apenas. Sem aditivos teóricos nem filtros do Instagram. No limite, e a falar-se sobre alguma coisa (mesmo que à boca cheia), será sempre sobre comida, ou então sobre o ato de comer. Tautologia transformada em autofagia filtrada em efemeridade... Regressar à comida implica, onto-tecnologicamente, regressar ao regime do itinerante, ao movimento recoletor, ao prazer do encontro com o exótico, à relação com o outro na partilha do sensível, ao reconhecimento da impossibilidade de cisão entre natural e artificial (é tudo natural, porque existe!), à superioridade do gosto (o sentido, não o critério!), ao desejo... Porque cada vez mais comemos aquilo que somos (e não a falácia do seu contrário), proponho então uma nova dieta — paradigma performativo e corporal — para o século XXI: comer comida e falar sobre ela.